Em um cenário marcado por episódios recentes de estresse de liquidez e maior fiscalização sobre instituições financeiras, a segurança dos recursos voltou ao centro das decisões de investidores e empresas. A pergunta não é apenas onde investir ou captar crédito, mas com quem — e sob quais riscos.
O ambiente financeiro passa por uma transformação acelerada. A combinação entre tecnologia, competição intensa e novos modelos de negócio ampliou as opções disponíveis no mercado. Esse movimento é positivo: mais concorrência tende a gerar produtos mais eficientes, taxas mais competitivas e melhor experiência para o cliente. Ao mesmo tempo, eleva a complexidade da análise e exige maior diligência por parte do investidor.
“Conhecer a solidez da instituição financeira é parte fundamental do perfil do investidor. Avaliar riscos, estrutura e governança ajuda a evitar decisões baseadas apenas em promessas de rentabilidade”, afirma Renato Coelho, CEO do Go.Bank. Segundo ele, ao buscar crédito ou investimento, é essencial adotar uma postura ativa: compreender como cada instituição opera, quais riscos assume e como os recursos são protegidos.
Nesse contexto, sustentabilidade financeira, governança e transparência deixam de ser diferenciais e passam a ser condições mínimas para a longevidade de bancos e Fintechs. “Em um mercado dinâmico, a análise consistente é o principal ativo.”
A seguir, um checklist com critérios fundamentais para avaliar a solidez dessas instituições — além de sinais de alerta que merecem atenção.
1. Conhecer o controlador e a estrutura societária
A identidade dos controladores influencia diretamente a cultura organizacional, a governança e a capacidade de gestão de riscos. Aspectos-chave incluem:
• histórico e experiência dos controladores;
• capacidade financeira do grupo econômico;
• alinhamento entre estratégia, governança e práticas de mercado.
Instituições respaldadas por grupos sólidos e experientes tendem a apresentar maior estabilidade e menor propensão a eventos de crédito.
2. Entender o modelo de negócio
Bancos e Fintechs podem operar sob lógicas bastante distintas — crédito, pagamentos, investimentos, plataformas tecnológicas ou nichos específicos. Compreender o modelo de negócio ajuda a responder perguntas essenciais:
• de onde vem a receita;
• quais riscos são assumidos;
• o crescimento é sustentável ou depende de captação agressiva.
Modelos pouco transparentes ou excessivamente baseados em expansão acelerada, sem histórico consistente de rentabilidade, exigem cautela adicional.
3. Avaliar a composição da carteira de crédito
A carteira de crédito é um dos principais termômetros de risco. Pontos de atenção incluem:
• concentração em poucos setores ou clientes;
• exposição a segmentos com maior inadimplência;
• critérios de concessão e políticas de recuperação;
• evolução da inadimplência ao longo do tempo.
Carteiras excessivamente concentradas ou com deterioração rápida podem sinalizar fragilidade estrutural.
4. Acompanhar indicadores financeiros básicos
Embora eventos de crédito sejam difíceis de prever, alguns indicadores ajudam a monitorar a saúde financeira:
• Lucro líquido: consistência e recorrência importam mais do que resultados pontuais;
• Retorno sobre patrimônio (ROE): indica eficiência e geração de valor;
• Índice de Basileia: mede a capacidade de absorção de perdas; níveis mais elevados indicam maior resiliência.
Quedas persistentes nesses indicadores costumam anteceder períodos de maior estresse.
5. Governança, compliance e transparência
A solidez de uma instituição não se resume aos números. Elementos qualitativos são determinantes:
• práticas robustas de compliance e controles internos;
• auditorias independentes;
• clareza na comunicação com clientes e investidores;
• políticas formais de gestão de riscos;
• cultura ética e responsabilidade corporativa.
Instituições transparentes e com boa governança tendem a reduzir a probabilidade de eventos inesperados e a reagir melhor em cenários adversos.
6. Rentabilidade elevada e sinais de alerta
Retornos acima da média chamam atenção, mas não existem investimentos sem risco. Rentabilidades excessivas geralmente refletem maior exposição — e, quando o risco se materializa, a perda de liquidez ou de acesso aos recursos costuma superar qualquer ganho prometido.
Sinais de alerta incluem:
• taxas persistentemente acima do mercado, sobretudo em produtos de captação;
• comunicação pouco clara ou mudanças frequentes nas condições;
• incentivos focados apenas no crescimento acelerado;
• notícias negativas, investigações ou deterioração de indicadores;
• falta de transparência sobre controladores, carteira ou demonstrações financeiras.
Esses fatores não indicam, isoladamente, a ocorrência de um evento de crédito, mas justificam uma análise mais cuidadosa.




